domingo, 15 de junho de 2008

* voltar a lembrar *

eu tive vontade de lembrar das coisas que eu fiz questão de esquecer
não, não foi trauma que me fez querer bloquear os pensamentos, as lembranças...
foram os meios que justificam os fins.

passou muitos anos desde a última vez que eu andei sozinha numa estrada
e passou muito tempo desde quando eu comecei a ficar esquecida e não lembrar mais o caminho da volta quando ele foi o mesmo, e o simples da ida.

é estranho isso? não...é assustador você perceber que a cada minuto sua memória que antes era tão rápida em detalhes e com uma vastidão de cores e partículas olfativas virou uma parede branca.

é pior do que as pessoas que vão passando e sumindo ao longo dos acontecimentos da vida.

comecei a lembrar da última ligação que eu recebi e que me irritara muito, gritei, ouvi e gritei mais alto que eu pude, nunca consegui me lembrar de como seria esforçar os pulmões e empurrar a raiva pra pontinha da garganta até ser um estouro de fúria que viria o grito.

a única sensação do grito é lembrar que eu não sabia gritar.

pra alguma coisa uma ligação as 11:30 de um sábado ensolarado serviu.

lembro mais das coisas quando eu sinto cheiros que me remetem as lembranças.

fica muito mais fácil.

quando eu era criança eu sabia que ia ser dia de ir a feira porque eu passava pelo quintal e sentia o cheiro do café que meu avô fazia mais tarde por ir a feira com a minha avó e depois voltar e arrumar tudo...

quando eu sinto cheiro de papel velho eu lembro de cartas

nunca mais escrevi

perdi a vontade.

e como sempre digo...tem coisas que morrem antes, bem antes de serem ditas.

assim vai morrendo a minha boa memória, aquela tão famigerada e elogiada por todos: "menina de memória fotográfica".


é uma pena...

mas não foi descuido particular, foram só efeitos colaterais que eu não poderia parar.

o tempo...os problemas com ele e os problemas com as circustâncias causadas dentro dele.

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